Elena Grecchi
Perguntas a Jorge Amado

(1989)




Para esta entrevista, vou usar como ponto de partida sua recente "inovação em matéria de romances" lançada no "Sumiço da Santa": a "Correspondência com os leitores". Será pois sobre esse livro que serão focalizadas as primeiras perguntas.

Cara amiga Elena, respondo com prazer e interesse às perguntas que você me propõe para a entrevista perguntas que saõ pertinentes, inteligentes e esclarecedoras - gostei e quero agradecer a você pela estima que elas revelam em relação à minha obra de romancista. Vamos às perguntas.

Em sua "Correspondência", o Senhor faz alusão à "senilidade" e "caduquice" do autor do livro - e todos sabemos o quanto esta diagnose está fóra de lugar. Porque o fez? Há nisso uma ponta de polêmica, e dirigida contra quem?

Jorge Amado - Minha "senilidade" e "caduquice"? Senilidade e caduquice do personagem "o Autor", personagem que aparece em mais de um romance de minha autoria (em "Tieta", por exemple) e que dialoga, e por vezes discute, com os leitores. No "Sumiço da Santa", o Autor está muito presente, pode-se dizer que ele expõe diante dos leitores toda a estrutura do romance, sua construção.
Mas, se a senilidade e a caduquice são do Autor, não lhe escondo que o personagem "Autor" tem muito aver comigo e que, ao falar em caduquice etc, eu o faço numa gozação, de certa maneira polêmica, - mais debochativa do que polêmica -, com certo tipo de critica, muito habitual no Brasil, pernostica, grupista, modernosa - pura a qual somente existe, de forma valida, "le dernier cri". Uma certa crítica dogmatica que pensa que é definitiva quando é apenas tola.

0 Senhor descreve-se como um autor "velho de idade e de batalhas perdidas". Contudo, se conisiderarmos sua vida e sua obra, só podemos averiguar que, em primeiro lugar o autor não é assim tão velho - talvez ancião, mas só quanto à data de nascimento - e além disso que, se perdeu algumas batalhas, por certo não perdeu a guerra. O senhor è um autor conhecido e amado (se bem ou mal-amado isso já è outro assunto) no mundo inteiro;os "dados do teorema" começaram a ser modificados de acôrdo com seus desejos, um certo humanismo está se insinuando no relacionamento entre povos e entre pessoas, seu país atingiu uma nova forma de democracia. Onde, então, estaria sua derrota?

Jorge Amado - O que o Autor diz sobre sua velhice, batalhas perdidas, etc., ele o fez em forma de deboche, debochando dos críticos dogmáticos citados acima. Crejo que evolui, em meo trabalho literário, no decorrer de mais de cinquenta anos de oficio - o duro e delicioso oficio de romancista - de posições ideológicas estreitas para uma posição humanista, onde os preconceitos de toda ordem, inelusiva os ideologicas, já não encontram lugar.
Não me considero derrotado. Sou combatido, patrulhado, por vezes negado, exatamente por aqueles que não admitem que se possa ter uma pensamento livre, independente. Em troca, sou estimado por um público enorme, tanto no Brasil como fora do Brasil. Tenho meza posta em qualquer lugar onde chego: tenho amigos, gente que ama meus livros.

Se o que lhe aparece como uma forma de derrota è o fato de que a crítica "não se pollue de prazer" lendo seus "papeluchos de linguagem pobre, vazios de idéias, populacheiros", minha pergunta será então:
a) não acredita que essa falta de prazer na leitura de seus livros por parte da crítica seja o comprovante de que sua obra narrativa - como aliás toda a grande autentica literatura - destina-se a falar ao coração do povo e não à crítica academica?
b) a qual crítica refere-se em particular, visto os comentários cheios de entusiasmo que sempre acompanham a publicação de seus novos livros?


Jorge Amado - Já disse que não me considero derrotado, de nenhuma maniera. Que certa crítica não estime meus livros, não me causa comoção. Escrevo para ser lido, de preferência pelo povo, "para falar ao coração do povo", como você diz. Que certa "inteligentzia" repudie minha obra; é a prova melhor que atinjo o "coração do povo". Meus livros jamais tiveram uma crítica unanimemente favorável: sou um escritor discutido. Felizmente, pois a unanimidade é perigosa, é negativa.

Entre as razoões possíveis da reticência de alguns críticos a respeito de sua obra, gostaria de enumerar algumas, e perguntar qual, ou quais, em sua opinião, seriam as causas principais dessa frieza:
a) - a tendência geral a qual impede que se aceite que uma obra substancialmente séria possa ser também divertida;
b) - a recusa de uma mensagem considerada por alguns a expressão de um empenho mais politico que humano;
c) - a liberdade com que em seus romances são tratados sexo e erotismo;
d) - a superficialidade de Julgamento, a qual impede de perceber, por trás da linguagem "pobre" a consistiência de uma cultura profunda e eclética;
e) - o esnobismo literário de quem, por preconceito, só está disposto a reconhecer o valor de obras "modernosas, seriosas, tediosas".


Jorge Amado - Creio que todas as razões que você enumera dão motivo às restirções de certos críticos à minha obra. Creio, porem que a razão fundamental é o fato dela representar hoje uma posição humanista, liberta de qualquer compromisso ideológico: não pertenço a grupos, escolas ou correntes. Essa a maior razão.

A propósito de literatura moderna - e moderosa, seriosa, tediosa - há algum título. em particular que o senhor gratificaria desses três adjetivos?

Jorge Amado - Muitas, mas não gostaria de citar nenhuma: respeito o trabalho de todos os demais escritores mesmo quando essa trabalho não é de minha estima literária.

Mudando de assunto: vários de seus ranances - principalmente os que a crítica inclui no chamado "cilo bahiano" - apresentam personagens e acontecimentos reais na vida da Bahia. Fóra a gravação de músicas e danças para "Le Grand Echiquier" de Jacques Chancel, há no "Sumiço" algo mais que tenha sido extrapolado da cronica da cidade? As duas exposições, por exemplo - a de Arte Religiosa da Bahia e a do Banco de Desenvolvimento - foram realmente apresentadas ao público, como ter-se-ia a tentação de acreditar, ou são obra da sua fantasia? E se trata-se de eventos reais, mas transfigurados por seu pessoal pó do pirlimpimpim, poderemos concluir, como o sugere o escritor Antonio Olinto, que sua obra narrativa - realistica mas impregnada de elementos mágicos - pode-se enquadrar no chamado "realismo mágico"?

Jorge Amado - Meus livros buscam retratar a realidade brasileira, recriar a vida do provo, meus temas decorrem da realidade, meus personagens são colhidos no meio do provo. Por vezes existem neles acontecimentos reais, que succederam, personagens que são pessoas vivas. No "Sumiço da Santa" isso acontece com freqüência. Além da gravação de musicas para "Le Grand Echiquier", várias outras coisas são citações extrapoladas da crônica da citade, e existem, além de Chancel, vários outros personagens que são personalidades da vida baiana, Carybé, por exemplo. Nenhuma das duas Exposições aconteceu mas todos os artistas (e alguns dos trabalhos citados) que aparecem no Banco do Desenvolvimento, são artistas baianos de presença atuante na arte brasileira. Não estimo os rótulos literários (o realismo magico sempre existiu na literatura) mas posso dizer que minha obra se inspira fundamentalemente na realidade baiana que é extremamente mágica.

A respeito dos personagens, não è difícil observar em seus romances a presençã recorrentes de figuras que, por vez com nomes diversos, em situaçoes análogas ou diferentes, participam repetidamente da ação, como se o senhor dedicasse-lhes um afeto particular, que o impede de separar-se delas. Poderia, pois, dizer, como Italo Svevo, que em realidade escreveu um único romance? Ou então trata-se de um seriado, de um longo folhetim, como frequentemente o senhor gosta de defìnir sua obra? E, sempre a propósito de literatura popular, pode explicar a razão de seus frequentes clins d'oeil para a literatura de cordel?

Jorge Amado - Manuel e Maria Clara, por exemplo, surgem em "Jubjabá" romance de 1935, aparecem em vários dos meus romances, inclusiveno "Sumiço". Dedico-lhes afeto, a esses e a outros personagens, e também poderia dizer, como Italo Zvevo, que , em realidade, escrevi uma único romance - sou repetitivo, creio que isso é uma característica de minha obra, devido exatamente a ser ela recriação da vida popular baiana. - Quanto às referências successivas à "folhetim" ou à "literatura de cordel" tais referências esclarecem e comprovam a ligação de temas e estrutura de meus livros com o folhetim e o cordel, expressões de literatura popular.

Entre os personagens de presença recurrente em seus livros, há vários membros do clero: os bons pastores, os máus pastores - exatamente como nos "Noivos" de Manzoni. Se as razões de Manzoni, escritor católico de inclinações jansenistas, são extremamente claras, um pouco menos claras são as suas. A não ser que sua experiência juvenil de aluno dos Gesuitas tenha lhe deixado, latente, um interesse particular, uma especie de perplexa curiosidade a respeito dos eclesiásticos.

E, quanto à sua própria personalidade, acha o senhor que deve algo aos Gesuitas de sua juventude?


Jorge Amado - A Igreja Católica no brasil está dividida em profundidade - esta é uma realidade indiscutível, nega-lo é uma tolice. De um lado parte do clero e grande parte das altas autoridades eclesiásticas continuam a agir e a doutrinar no sentido da "Igreja a serviço das classes dominantes, do poder, dos ricos". De outro lado, parte do clero e uma parte menor das autoridades eclessiásticas agem e doutrinam em defesa dos pobres, dos sem terra, da grande massa do povo brasileiro, despossuída e oprimida, rompendo com a tradição de uma Igreja servil aos ricos. Não sendo católico - não tenho sentimento religioso, sou materialista - não me cabe opinar na discussão teológica mas posso constatar como faço em meus livros, sobretudo em "O Sumiçoda Santa" que o clero católico, o das comunidades de base e da teoria da libertação, tem agido ao lado do povo brasileiro, de forma ativa e por vezes heróica, na luta pela solução dos problemas sociais tão graves e de uma vida melhor para a população - e esse clero merece meu respeito e meu aplauso. Tenho buscado, em minha obra, fazer justiça a esses padres e bispos. - Sou devedor aos jesuítas, ou melhor a alguns jesuítas, dos quais fui aluno, de bons hábitos, adquiridostos com eles, como o da leitura, por exemplo.

De fato, a atuação mais recente da Igreja - ou ao menos dagueles membros das Comunidades de Base, que inspiram-se do Concilio Vaticano II, no que diz respeito à posse dos bens da terra, parece ter impressionado muito o senhor. Esta nova face da Igreja, consciente dos direitos dos pobres e indignada pelos abusos dos ricos, representa, na sua opinião, a manifestação de uma breve temporada feliz, condicionada pela presença carismática do Papa João XXIII, ou ao contrário, e apesar das tendências contra-reformistas do Papa atual, destina-se a durar contra ventos e marés?

Jorge Amado - Penso que sim . O Papa atual, político e por vezes extremamente reácionario, tem golpeado repetidas vezes os padres e bispos progressistas mas creio que não conseguiu demovê-los de sua posição patriótica ao lado dos interesses do povo. Não conseguiu e, provavelmente, não consegurá. Ao fazer o elogio da actuação desses padres e bispos em meus livros, não deixo no entanto de criticar o dogmatismo a que, por vezes se apegam, o que os leva aposições contraditórias - veja-se, por exemplo, o problema da castidade do clero.

E por falar em "ventos e marés", expressão tipicamente francesa, não acha que com sua longa permanência no Quaí des Célestins a lingua de Voltaire e Montesquieu insinuou-se de certo modo na sua linguagem, o que dá ao seu últmo livro un petit piment français - aliás extremamente agradável?

Jorge Amado - Se você acha que sim, eu concordo.

Sempre a respeito da França - um país onde o senhor è particularmente admirado e onde o Presidente Mitterrand o nomeou Commandeur de Légion d'Honneur - seus personagens "viajados" - parlo em particular do poeta Bruno de "Farda fardão" - demonstram um amor profundo - o seu evidentemente - pela France éternelle, uma verdadeira gula por queijos e bebidas, inqlusive o terrível Cassis adocicado, e, naturalmente, uma predileção pela literatura francesa.
Os nomes que vêm espontaneamente à memória, a respeito de sua obra, são os de Zola e Maupassant. Acha que esses autores transmitiram-lhe de fato algo importante, algo que contribuiu à sua inspiração?


Jorge Amado - O amor de Antônio Bruno - e de outros personagens meus - pela França é reflexo do meu amor por um país a que tanto devemos, nós todos, brasileiros: sua cultura foi uma luz que iluminou nosso caminho de povo. Leitor da literatura francesa, guloso, como você diz com razão, de "queijos e vinhos" (mas não do cassis adocicdado, beibida no entanto da predileção de Zélia), sofri influência de França e de seus escritores. De Zola e Maupassant (que você cita) mas também e sobretudo de Rabelais, um dos maiores entre quantos escreveram e criaram.

Passando a perguntas de interesse geral: como percebeu a pereztroika? Acredita que isso represente de certa maneira uma resposta e exigências suas?

Jorge Amado - A perestroika é, a meu ver, uma revolução, talvês a maior da segunda metade do século XX, e o destino de todos hos homens e do mundo inteiro, da paz e da guerra, está na depndeência de sua vitoria ou de sua derrota. O que se passa na Urss interessa não apenas ao povo soviético: interessa e condiciona o futuro de todos nós, em qualquer parte do mundo. Como aconteceu há dois séculos com a Revolução francesa ou em 1917 com a Revolução Russa. Vivemos uma nova Revolução contra o atraso, o obscurantismo, a violência, a ilegalidade, o reacionarismo, a burocracia, o desprezo pelos direitos do homem e pelo indivíduo.

Em posição oposta, que tal acha do surto recente de fanatismo e intolerância que se manifesta em toda parte, como demonstram os casos Scorsese e Rushdie?

Jorge Amado - A intolerância continua a existir e adquire hoje novas formas religiosas e políticas que pôr vezes se apresentam até com uma fechada de esquerda (e com isso obtêm certo apoio da média influenciada pela esquerda). Nos casos que você cita encontramos dois bons exemplo. A condenação de Rushdie à morte, é um golpe político do atolá mas significa, ao mesmo tempo, o auge desse surto de violência e de intolerância que tenta dominar o mundo. Voltamos às trevas da Idade Media e da Inquisição.

Se já leu os "Versos Satânicos", como julgou o livro? Acha - o bom, ou pareceu-lhe modernoso - serioso - tedioso?

Jorge Amado - Aimda não li os "Versos Satânicos", espero a tradução francesa pois não leio inglês. Mas li de Rushdie "Os filhos da meia-noite", um romance que me pareceu inportante, belo, apesar de não ser de leitura fácil, mas eu sou um velho mastigador de romances. Gostei muito do livro. Li também um pequeno livro de Rushdie sobre a Nicarágua e também gostei, além de tudo é bastante divertido.

Sempre a respeito do livro de Rushdie, acha a acusação de blasfemia procedente? Não há precedentes ilustres de obras igualmente "blasfemas", ou mesmo mais blasfemas que a de Rushdie, que foram publicadas sem que ninguém se incomodasse com elas, ou fosse incomodar aos outros? Por exemplo: entre "José e seus irmaos" e os "Versos" de Rushdie, qual seria a obra mais "blasfema" segundo o senhor?

Jorge Amado - A blasfêmia pode exixstir nos livros citados e dai? O escritor tem direito à blasfêmia, e não deve, em nenhuma hipóteze, ser sancionado ou condenado por exercer esse direito. A ortodoxia é uma das misérias de nosso tempo.

Ultima pergunta sobre este assunto: não acha que com sua intervenção Khomeini obteve o duplo efeito de multiplicar as vendas do livro de Rushdie e de desmoralizar o Islã?

Jorge Amado - Quanto a Komeini, obetve o que queria: fortalecer-se no poder autoritário, ditatorial, alijar os moderados de seu governo, no Irã. Era isso o que ele queria. Em contrapartida, fez a propaganda do livro ao condenar o autor à morte. Quanto ao Islã ninguem o pode desmoralisar, é parte da caminhada do homem, mais além de Rushdie, notável romancista, e de Komeini, mísero tirano de nosso tempo.

Vamos voltar um momento a falar no Brasil: seu país conhece na hora atual um governo democrático, liberamente eleito, após longos anos de opressão e ditadura. Não acha o senhor que os escritores brasileiros que como o proprio senhor contribuiram à volta da democracia no país tem agora outra importante tarefa a executar? Refiro-me particularmente à situação gravísima da floresta amazõnica que, segundo afirmava o saudoso Chico Mendes, está sendo sistematicanente destruida, a favor exclusivo de meia dúzia de criadores de gado. Há algo que os escritores brasileiros propoe-se a fazer, para a proteção dos indios, e para que a morte do Chico não haja sido inútil?

Jorge Amado - Vivemos no Brasil um tempo de democracia. Democracia de direito com a promulgação da nova Constitução. O governo Sarney conseguiu realizar com extrema habilidade a transição da ditadura militar para a democracia constitucional, apesar das imensas dificuldades sobretudo as de ordem econômica. Pode-se dizer que a sociedade brasileira readiquiriu a voz e começa a agir no sentido de conhecer e resolver os grandes problemas sociais, fundamentais para o desenvolvimento do pais. A começar pelo problema da terra, o maior de todos, que inclui a propriedade e a exploração da terra, a reforma agrária, os problemas da ecologia, da Amazônia, dos índios, temas que importam não apenas ao Brasil mas a todo mundo. Os escritores brasileiros, que se bateram contra a ditadura, têm uma tradição que os honra: têm estado sempre au lado do povo brasileiro, cotra seus inimigos, lutando pelo futuro. Estou certo que continuarão a lutar pelo Brasil e por seu povo.

Obrigada.